Em 1968-69, fui trabalhar no Yázigi. Éramos treinados nos cursos livres de línguas para usar o material deles. Não precisávamos pensar, mas o conhecimento é a navegação em um oceano de incertezas, entre arquipélagos de certezas e a única certeza que eu tinha lá no final dos anos 60 e início dos anos 70 era de que algo não estava como devia estar. O resultado disso era que eu não gostava de ser professora, mas sem qualificação eu não tinha outra solução. Nesse mesmo período, conheci meu marido, namorei, noivei e casei, deslumbradamente mulherzinha, embora head over heels in love e passei a ser esposa e mãe, abandonando a docência na escola. Mergulhei de cabeça e de coração no meu casamento na arte de ser mulher e mãe. Fui criada especificamente pra isso. Foram anos de aprendizagem prazeroso e difícil...
Começou uma fase nova na minha vida pessoal e profissional, pois não abandonei o ensino por total e ao ter marido e filhos comecei a aprender com quantos paus se fazia uma canoa! O que significava ser mulher e mãe... Dei-me conta que eu não estava sozinha neste mundo... Mantive as minhas aulas particulares e passei a me envolver com os meus filhos em número de quatro. Dois meninos e duas meninas, minhas paixões e meus melhores amigos. Foram oito anos bons de muito amor, amizade, companheirismo e produção!! Produtos desse amor são Derek, Jennifer, Caroline e Richard. Por que nomes em inglês? Meu marido era brasileiro, mas o ‘inglês’ na minha vida falou mais alto... Imaturidade? Alienação? Certamente.
Quando meus filhos estavam na escola, curiosa sempre, intrigava-me que o falar leigo era de que português era muito difícil. Meu interesse provavelmente originava-se na minha experiência de desenvolvimento das minhas línguas maternas – inglês e espanhol – em que nunca houve um elemento de dificuldade. A lembrança de trabalhos e provas é de leitura, compreensão e escrita. Entretanto, tive que entender a estrutura de uma língua que, a essa altura, eu usava fluentemente, embora com alguns desvios da norma, mas que nunca tinha estudado, para poder ajudar os meus filhos. Esse foi o primeiro momento na minha vida em que comecei a entender por que as pessoas diziam não gostar de ‘língua portuguesa’. Primeiro, é mister esclarecer que eram as aulas de L.P. o que desagradava as pessoas e não sua língua materna. Segundo, língua portuguesa para elas era a gramática da língua, que embora necessária, considerando que língua é gramática, era abordada como algo estático, estrutural e não como o elemento vivo e dinâmico que nos move no desenvolvimento como pessoas. O belo da língua não era trabalhado. O objetivo maior de trabalhar com a língua – o desenvolvimento humano – não era explorado.
Foi neste período – 1977-1980 – que eu constatei que eu não ensinava inglês, e sim treinava os meus alunos particulares a passarem nas provas. Provas essas completamente estruturais e, mais sério, absolutamente descontextualizadas e desprovidas de sentido. Passei, como num passe de mágica, de uma professora reconhecida, embora ainda sem qualificação específica e sem gostar muito do que fazia, para uma pessoa muito confusa.
Este fato mudou a minha vida.
Continua...




































