
Idas e vindas
Anos 60, 70... 2007... Tanta coisa já foi e veio nesse tempo... Tantas coisas boas e tantas outras ruins. Dessas últimas não quero lembrar. Quero recordar as boas, as que nos trazem um calorzinho gostoso no peito... As que nos fazem rir... As que fazem surgir um olhar longínquo cheio de nostalgia...
Viagens que fizemos para encurtar a distância entre o novo e o velho. Experiências nas estradas do Rio Grande do Sul e do Uruguai. Estou aqui sorrindo ao lembrar das estradas. Nem as poderíamos chamar de estradas se comparadas com as vias de hoje. Acho que é dessa época que nasceu meu gosto por aventuras, por trilhas de jipe, por coisas fora do comum.
Uma viagem a Montevidéu levava dezoito horas se tudo corresse bem de ônibus e trem. Eu tinha um tio que era CEO na ferrovia uruguaia, que era, por sua vez, uma empresa inglesa. Muito engraçado, contava inúmeras histórias que adorávamos. Uma era de que ao estar viajando num trem era preciso prestar atenção a algumas coisinhas. Dizia ele:
— Se o trem parar e o maquinista sair correndo pelo fundo do trem, levantem e saiam correndo atrás.
Uma vez, minha mãe e eu viajávamos para Montevidéu. Saímos de Pelotas no ônibus das cinco da manhã em direção a Jaguarão, naquela época quatro horas de viagem em estrada de terra. Pegamos o trem – el ferrocarril – que saía da ponte entre Jaguarão e Rio Branco ao meio dia. Viajamos algumas horas e o condutor passou pelos vagões gritando:
— Transbalde en Nicoperes! Transbalde en Nicoperes!
O trem parou e todo mundo desceu e saiu correndo para pegar lugar no outro trem. Mais parecia uma manada tentando acertar a porteira do curral! Tendo conseguido subir no trem, sentamos no último vagão. Era um trem belíssimo, daqueles antigos, ingleses com bancos de couro. A viagem continuou com aquele balanço característico dos trens da época. Dormi.
Deveríamos ter chegado a Montevidéu às vinte horas. Às vinte e uma e trinta, mais ou menos, após ter passado em uma estação SEM parar, o trem subitamente parou no meio do nada. Acordei. Olhamos uma para a outra, espiávamos pela janela sem enxergar nada, quando de repente eis que surge o maquinista correndo pelo trem e saiu para os trilhos desaparecendo na noite! Eu perguntei pra minha mãe:
— E agora, o que fazemos? Vamos sair correndo atrás dele?
Eu era criança e minha mãe me olhou e disse, caracteristicamente,:
— Não sejas ridícula!
Fiquei na minha, mas minha cabeça fantasiando! Dentro de uns dez minutos voltou o maquinista ainda correndo, com o aro de sinalização no braço.
Ao passar na estação, ele havia esquecido de pegar o aro de sinalização que lhe dizia que a via estava aberta para nós!! O maior azar dele não foi ter passado na estação esquecendo do aro, mas foi o fato de que carregava como passageiras no trem a cunhada e a sobrinha do CEO, que soube, por nós, exatamente o que havia acontecido.
Certamente, a história contada pelo maquinista não foi a mesma. O que será que aconteceu com o maquinista?
© Anne M. Moor - 2007