segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Presença


Sei que andando por aí
Eu te vou encontrar
Não num rosto qualquer
Não naquilo que escorre
Da minha memória
Mas no que em mim vive,
A tua presença

Sei que ao som daquela música
Meu peito de novo
Sentirá a mistura
Que vem desse não sei quê
Que é o ter e não ter

Mas que não é mágoa
nem vazio é,
um misto de saudade
Que vem só de sentir
Que há tempo ainda
E espaço por vencer

É querer e não ter
Mas saber que te tenho
É sentir que há distancia,
Distancia que não chega a ser
Porque sinto real o toque que vai
Para lá da mão e além do olhar

É sentir que aqui
no espaço que cresce em mim,
pode ser o lugar onde nos deitamos
Despojadas de coordenadas
Sem hemisférios,
sem norte ou sul
O lugar onde misteriosamente
pertencemos, eu e tu.

Ângela Santos

sábado, 26 de setembro de 2009

Linhas cruzadas


O falar pressupõe o ouvir -
o escutar essencial.
Causa-me estranheza
a pressa no ler entre
nós, sem o refletir –
já dizia Rui Barbosa!


Apagar incêndio parece

ter se tornado meu ofício
nos dias que passam
tirando-me a chance
do pensar, do pesquisar,
enfim, do fazer!


Colaborar uns com os outros
torna-se um fantasma do
fazer, em vez de ser a mão
a guiar o processo. Será
tão difícil o refletir no ler,
o cooperar no aprender do outro?


Desenriçar os fios das linhas
é função a aperfeiçoar no
andar da carruagem e na
acomodação das melancias.
Demo-nos as mãos para
caminhar em frente em linha unida!


© Anne M. Moor

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fim de um dia...

Fim de um dia cheio! Cheio de movimento. Entupido de diversidades. Incêndios mis para apagar. Linhas cruzadas entre um mar de gente a trabalhar em conjunto na arte de provocar a aprendizagem. Cansada! Satisfeita! Neurônios zunindo de um lado pro outro ainda. Tentando relaxar. Sara McLachlan no vídeo. Gostosa música e contação de histórias. Gata por perto, como sempre... Filha passando uns dias aqui. Tudo para um agradável fim de noite...

sábado, 19 de setembro de 2009

Vozerio


Ouvir-te em meio ao vozerio
que instalado está, traz à tona
gestos, ‘olhares’, atitudes de
acolá a alvitrear a zombaria
e brincar com minha lucidez!

Descobrir-me em silêncios de
introspecção perplexa que
desvela um outro bizarro
no tumulto instaurado de
uma alma provocada!

Desvendar-te seria cavalgar
num cavalo descontrolado
que repentinamente freou!
Pensar-te em meio ao vozerio
do silêncio é sentir-te!

© Anne M. Moor

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Navegación


En las mansas corrientes de tus manos
y en tus manos que son tormenta
en la nave divagante de tus ojos
que tienen rumbo seguro
en la redondez de tu vientre
como una esfera perpetuamente inacabada
en la morosidad de tus palabras
veloces como fieras fugitivas
en la suavidad de tu piel
ardiendo en ciudades incendiadas
en el lunar único de tu brazo
anclé la nave.

Navegaríamos,
si el tiempo hubiera sido favorable.

(Cristina Peri Rossi, n 1941, Uruguaiin "Linguística general" 1979)

Imagem: "O Medo" de Edvard Munch

domingo, 13 de setembro de 2009

Quero entender...


"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Clarice Lispector
http://www.geocities.com/Paris/Concorde/9366/

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Noites


O breu da noite que se oferece
pelas vidraças geladas a nos
proteger do vento que assobia
acompanha-me em descanso
merecido e no aconchego de
mim.

Minha fiel companheira
de todas as horas chama-me
para perto e no conforto do
saber-se juntas – a gata e eu –
preparamo-nos para
mais um dia!

© Anne M. Moor

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Viver!


Engraçado como várias pessoas acharam que eu estava triste ao ler meu último post... Não estava não. A visão e, especialmente, o cheiro da chuva é coisa que ascende minha memória e me leva em viagens gostosas. Lembra-me de pessoas, de momentos, de família, de experiências, enfim, da vida como ela foi e como ela é. Gosto tanto de viver, embora vez por outra tropece nas pedras que povoam o caminho. Mas ELAS são os desafios que constroem o viver! E de desafio eu também gosto! De provocação em provocação abrimos trilhas de significado para vagar por entre as árvores que fincam raízes e esticam seus galhos em direção ao espaço do vôo da águia. Aprendemos com elas a ser livres, ao mesmo tempo em que estamos presos às escolhas que fomos fazendo... Gosto mais de trilhas do que de estradas, pois as veredas arriscam-se nos desvios que se me apresentam. Viver é perambular e fazer escolhas. É arriscar. É errar. É cair e levantar. Sempre levantar...

© Anne M. Moor

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Chuva


Chuva que traz lembranças
Chuva que cai no seco
Chuva que me abraça
Chuva que instiga o olfato...

Corre a água pelo fio da calçada
Correm as lágrimas pelo rosto
Corre a chuva na lembrança
de um dia mágico...

Chuva como praga carinhosa
Chuva como resposta a preces
Chuva amiga que encanta
Os corações carentes...

by Anne M. Moor

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Em busca da coerência perdida


Quanto mais velha fico
Mais admiro a coerência
Nas pessoas, enquanto
Busco a mesma coisa
Na vida... ou será no sonho?

Utopia? Querer que quem
Ame saiba agir dentro de
Uma aura de carinho e
Companheirismo na trilha
De palavras, vontades, ações?

Andar por caminhos gostosos
Na coerência das palavras,
Da vontade, do agir,
é o exercício de uma vida,
também incoerente!

Incoerência é precursor de
Uma perplexidade insana
A povoar dias e noites num
Pensar em rodopios de
Incertezas e certezas!

© Anne M. Moor