sábado, 31 de março de 2007

Como cheguei aqui... (2)


Foi assim que em 1962 comecei a lecionar inglês. Com a minha irmã, criamos uma escola infantil para o ensino de inglês. Trabalhamos por intuição e por memória. Ao mesmo tempo, fui convidada para lecionar inglês numa escola particular, o que fiz por dois anos, também por intuição e memória. Coitados dos alunos!!!!! Também, foi nesse período, de 1962 a 1967, que comecei a conhecer a organização escolar pelo lado do professor. Sem qualificação, possível naquela época, começou minha trajetória como professora pela prática, escorada pela memória dos meus anos de aluna em três países diferentes e em escolas com óticas diferentes. A minha prática era plena de interrogações, que provavelmente foram o oxigênio do meu conhecimento ainda a ser construído. Junto com as minhas interrogações eu tinha certezas, baseadas na minha imaturidade e inexperiência, que, aos poucos, foram se desfazendo e sendo substituídas pelas incertezas e interrogações incentivadas pela minha curiosidade inata. Foi neste momento que, embora muito insipidamente, começou-se a construção de minha capacidade de reflexão e auto-reflexão. Nunca é tarde pra começar! Better late than never!!

Em 1968-69, fui trabalhar no Yázigi. Éramos treinados nos cursos livres de línguas para usar o material deles. Não precisávamos pensar, mas o conhecimento é a navegação em um oceano de incertezas, entre arquipélagos de certezas e a única certeza que eu tinha lá no final dos anos 60 e início dos anos 70 era de que algo não estava como devia estar. O resultado disso era que eu não gostava de ser professora, mas sem qualificação eu não tinha outra solução. Nesse mesmo período, conheci meu marido, namorei, noivei e casei, deslumbradamente mulherzinha, embora head over heels in love e passei a ser esposa e mãe, abandonando a docência na escola. Mergulhei de cabeça e de coração no meu casamento na arte de ser mulher e mãe. Fui criada especificamente pra isso. Foram anos de aprendizagem prazeroso e difícil...

Começou uma fase nova na minha vida pessoal e profissional, pois não abandonei o ensino por total e ao ter marido e filhos comecei a aprender com quantos paus se fazia uma canoa! O que significava ser mulher e mãe... Dei-me conta que eu não estava sozinha neste mundo... Mantive as minhas aulas particulares e passei a me envolver com os meus filhos em número de quatro. Dois meninos e duas meninas, minhas paixões e meus melhores amigos. Foram oito anos bons de muito amor, amizade, companheirismo e produção!! Produtos desse amor são Derek, Jennifer, Caroline e Richard. Por que nomes em inglês? Meu marido era brasileiro, mas o ‘inglês’ na minha vida falou mais alto... Imaturidade? Alienação? Certamente.

Quando meus filhos estavam na escola, curiosa sempre, intrigava-me que o falar leigo era de que português era muito difícil. Meu interesse provavelmente originava-se na minha experiência de desenvolvimento das minhas línguas maternas – inglês e espanhol – em que nunca houve um elemento de dificuldade. A lembrança de trabalhos e provas é de leitura, compreensão e escrita. Entretanto, tive que entender a estrutura de uma língua que, a essa altura, eu usava fluentemente, embora com alguns desvios da norma, mas que nunca tinha estudado, para poder ajudar os meus filhos. Esse foi o primeiro momento na minha vida em que comecei a entender por que as pessoas diziam não gostar de ‘língua portuguesa’. Primeiro, é mister esclarecer que eram as aulas de L.P. o que desagradava as pessoas e não sua língua materna. Segundo, língua portuguesa para elas era a gramática da língua, que embora necessária, considerando que língua é gramática, era abordada como algo estático, estrutural e não como o elemento vivo e dinâmico que nos move no desenvolvimento como pessoas. O belo da língua não era trabalhado. O objetivo maior de trabalhar com a língua – o desenvolvimento humano – não era explorado.

Foi neste período – 1977-1980 – que eu constatei que eu não ensinava inglês, e sim treinava os meus alunos particulares a passarem nas provas. Provas essas completamente estruturais e, mais sério, absolutamente descontextualizadas e desprovidas de sentido. Passei, como num passe de mágica, de uma professora reconhecida, embora ainda sem qualificação específica e sem gostar muito do que fazia, para uma pessoa muito confusa.

Este fato mudou a minha vida.

Continua...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Como cheguei aqui... (1)


CONSTRUINDO UMA IDENTIDADE

“Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de remos, de montanhas, de balas, de naves, de ilhas, de peixes, de habitações, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto traça a imagem do seu rosto.”
Jorge Luís Borges


As palavras de Borges demonstram de maneira ímpar a construção de uma identidade. A minha vida foi povoada por minha família, por países, cidades, culturas diferentes, pessoas, idéias, escolas, aulas, alunos e muitos sonhos. A curiosidade e a vontade de aprender têm entremeado esse caminho na construção da minha identidade de professora e pessoa.

Nasci e vivi minha primeira infância em Montevidéu (Uruguai), em uma família inglesa misturado com escocês. Com cinco anos fui à escola, um colégio britânico, bilíngüe. Fui alfabetizada nas duas línguas - inglês e espanhol – concomitantemente, ambas minhas línguas maternas. Convivi com duas culturas. Sempre falamos inglês em casa e ao viver no Uruguai, estava imersa nessa cultura. Lembro-me de muito pouco daquela época. As coisas que ficam são lembranças de diferenças culturais em atividades como aniversários, horários e alimentação entre a minha vida e a dos meus primos, com a vida dos vizinhos, dos meus amigos, dos meus colegas.

Com dez anos vim morar no Brasil. Lembro-me de ter chegado a Pelotas em um sábado e ter ido para o colégio na segunda. Senti-me um peixe fora d’água, lembro como se fosse hoje. Não conhecia ninguém, não entendia ninguém e não era entendida por ninguém. Foi uma experiência assustadora, mas logo passamos a nos entender, considerando que a interação que se estabeleceu levou à aquisição do português em pouco tempo.

Estive dois anos na escola em Pelotas, ambos na quinta série. Desse período, o que mais me lembro é a diferença de metodologia nas aulas com aquilo a que eu estava acostumada. Primeiro foi o tratamento formal, com o qual eu não estava acostumada. Aqui lembro perfeitamente da minha surpresa quando a professora me chamou de “senhora”. Isso foi algo que ficou muito marcado e que, mais tarde conclui ser a diferença entre o português e o inglês – era uma questão de língua e não tanto de formalidade.

Outra diferença se verificava na metodologia de ensino. Aqui havia muita leitura de textos sobre o conteúdo e questionários intermináveis que tínhamos que memorizar para as provas. Na escola britânica, no Uruguai, eu havia sido acostumada com um “prosear” na sala de aula, como diz Rubem Alves, com contação de histórias, muita leitura e expressão das minhas idéias, seja por escrito, oralmente ou por desenho.

Ser aprovada aqui era algo que alcançava com muita dificuldade, por duas razões básicas: português era língua estrangeira naquele momento e o fato de ter que memorizar conceitos que eu não havia entendido. Além disso, meus pais já haviam planejado meu futuro, o que implicava em ir a uma outra escola britânica, desta vez em Buenos Aires, na Argentina, e não deram muita importância para meu fracasso escolar. Fiz muitos amigos neste período, lembro-me dos piqueniques escolares, mas não lembro do nome dos meus professores.

Dos doze aos dezesseis anos passei na Argentina em uma escola inglesa, vindo pra casa nas férias, e me formei no ensino médio em inglês. Desse período tenho muitas lembranças: as discussões intermináveis sobre obras literárias, o aprender a escrever de maneira coesa e coerente, as histórias de vida que nossa professora da Bulgária nos contava, o esporte (tênis, hockey, volley, natação), que nos ensinou a pensar no outro e a como perder, as aulas de francês que nos ensinavam a falar e escrever em francês, enfim, os ensinamentos sobre a vida.

Quando terminei o ensino médio e voltei para Pelotas, informei aos meus pais que eu não queria continuar estudando. Meu pai aceitou, mas impôs uma condição: “então vais trabalhar.” Sempre fomos responsabilizados por nossas decisões.

Continua ...

quinta-feira, 29 de março de 2007

Este post é ensaio da UDI para nós...


Auroras
Verissimo

Em inglês há uma expressão bonita para dar-se conta, ter uma revelação, entender. 'It dawned on me.' Amanheceu em mim. Descreve o sentimento de subitamente ver com clareza o que antes era obscuro como uma aurora interior. Idéias amanhecem dentro de nós. Os olhos de uma pessoa se iluminarem quando ela tem uma percepção nova não é um clichê literário, é a luz deste alvorecer saindo pelos olhos. Não sei se existe expressão parecida em outras línguas, mas ela deveria ser universal. Afinal, sua origem é a experiência mais comum da humanidade desde que ela viu sua primeira aurora, a do sol afastando as trevas, a da noite dando lugar ao dia e à sua maior dádiva, que é a de nos permitir enxergar.

O resto do texto vc encontrará aqui:
(...) Estadão de hoje http://www.estado.com.br/editorias/2007/03/29/cad-1.93.2.20070329.106.1.xml?

quarta-feira, 28 de março de 2007

Viceversa

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.
Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.
Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.
o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.

By Mario Benedetti
http://www.avantel.net/~eoropesa/html/poesia/mbenedetti1.html#mbenedetti_1

Outro tipo de mulher nua

Recebi isto hoje e gostei... Compartilhando...

Depois da invenção do photoshop, até a mais insignificante das criaturas
vira uma deusa, basta uns retoquezinhos, aqui e ali.
Nunca vi tanta mulher nua.
Os sites da internet renovam semanalmente seu estoque de gatas vertiginosas.
O que não falta é candidata para tirar a roupa. Dá uma grana boa.
E o namorado apóia, o pai fica orgulhoso, a mãe acha um acontecimento, as amigas invejam, então pudor pra quê? Não sei se os homens estão radiantes com esta multiplicação de peitos e bundas. Infelizes não devem estar, mas duvido que algo que se tornou tão banal ainda enfeitice os que têm mais de 14 anos.
Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher se despir de verdade...emocionalmente. Nudez pode ter um significado diferente e muito mais intenso. É assistir a uma mulher desabotoar suas fantasias, suas dores, sua história. É erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente.
Uma mulher que diz o que pensa, o que sente e o que pretende, sem meias-verdades, sem esconder seus pequenos defeitos. Aliás, deveríamos nos orgulhar de nossas falhas, é o que nos torna humanas, e não bonecas de porcelana.
Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher em quem sempre se poderá confiar, mesmo que vire ex, mesmo que saiba demais.
Pouco tempo atrás, posar nua ainda era uma excentricidade das artistas, lembro que esperava-se com ansiedade a revista que traria um ensaio de Dina Sfat,por exemplo - pra citar uma mulher que sempre teve mais o que mostrar além do próprio corpo.
Mas agora não há mais charme nem suspense, estamos na era das mulheres coisificadas, que posam nuas porque consideram um degrau na carreira. Até é. Na maioria das vezes, rumo à decadência. Escadas servem para descer também.
Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expor nossos segredos e insanidades, revelar nosso interior. Mas é o que devemos continuar fazendo. Despir nossa alma e mostrar pra valer quem somos, o que trazemos por dentro. Não conheço strip-tease mais sedutor.

terça-feira, 27 de março de 2007



Adoro cozinhar com vinho. As vezes até ponho na comida...

Camões 2


Camões é um ícone da literatura mundial. Como Shakespeare, um precursor da análise humana. Um poeta de rara beleza que nos emociona. Prometi publicar o poema todo lá no post sobre o vestibular. Aqui está para se deliciarem e para pensarmos um pouco mais sobre o que ele está dizendo...

Amor é um Fogo que Arde sem se Ver
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

segunda-feira, 26 de março de 2007

Criatividade...



Adoro aluno criativo! Certa vez, uma aluna minha estava fazendo seu pré-estágio numa 8ª série. Levou uma tira do Hagar para aula para desenvolver leitura e compreensão. Após a leitura e compreensão, ela pediu aos alunos, que estavam em grupos de 4, para criarem uma história em quadrinhos. Ela, sem o mínimo senso de humor, me mostrou brava o que os meninos haviam escrito. Eu caí na gargalhada, o que não a deixou muito feliz!!!! Eis a história dos meninos:

[Não tenho os desenhos que fizeram...]
(...) championship of sword and one of the participants, base on idea of see who is better. (Contextualização da história :-) )

"Kill one fly. The first participant cath (=catch= pegou) the sword and cut the fly two parts and give (=deu) in the fly, but the fly out flie her body. Think he missed, but yes: "capado" the fly. But the bag of the fly fall in the soup of the king."

Se precisarem de tradução gritem que eu ajudo. Estes 4 meninos contaram uma história. Em vez de ficar brava (1ª reação dela) com eles, a estagiária, orientada por mim, elogiou os alunos e trabalhou com o texto deles para melhorarem o inglês. Não é genial? :-) É de aluno assim que precisamos...

Camões...

Eu já corrigi provas de vestibular por muitos anos e é inacreditável o que se vê... Mas queremos alunos como este:

Vestibular da Universidade da Bahia cobrou dos candidatos a interpretação do seguinte trecho de poema de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer".

Uma vestibulanda de 16 anos deu a sua interpretação:
"Ah! Camões, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicose
Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a internete
descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!"

Ganhou nota dez. Foi a primeira vez que, ao longo de mais de 500 anos, alguém desconfiou que o problema de Camões era falta de mulher...

Reflexões de uma manhã de segunda...


Tudo fica mais fácil com a prática - exceto levantar de manhã!